domingo, 31 de maio de 2009

ROSEMARY

Eram os olhos que, em Rosemary, mais chamavam a atenção: muito pretos, amendoados, rodeados de grandes pestanas, mais sorridentes que os lábios gordos e bem desenhados. E não admira. Era mexicaninha de gema, cheia de carnes firmes, torneada ao pormenor. Só não se dava muito pelos cabelos pretos e lisos, sempre rigorosamente apanhados, em pelo, sobre a nuca, cobertos com touca alençoada. E tinha um coração do tamanho duma abóbora-menina doce, doce, doce.
Rosemary casou aos dezasseis anos incompletos, por conveniência, com um velho americano que turistava na pequena cidade de Enseñada. Veio para a Califórnia na companhia do marido e foi às gargalhadas que o oficial da fronteira lhe visou o passaporte. Mais do que marido e mulher, pareciam avô e neta. Mas, para a então Rosa Maria, aquelas gargalhadas soavam melhor do que qualquer marcha nupcial. Para trás, deixava uma infância que nunca saíra do patamar da miséria: a multidão de irmãos, a barraca de espaço único, a promiscuidade, os pequenos crimes da sobrevivência, as disenterias de uma fome nunca satisfeita. E, sobretudo, um mercado de carne humana trafegado sob auspícios de crápulas que enriqueciam sem despesas. Foi nos meandros obscuros desta traficância que conheceu o velho americano com quem casou, após promessas de fidelidade que não eram para cumprir. A mesquinhez da vida ditava-lhe que aquele velho míope, vestido à safari e que se peidava finamente sempre que apalpava um seio de mulher, podia ser o seu bilhete da sorte. Suportou-lhe os cheiros e a lascívia e casaram sem demoras para não haver, de parte a parte, tempo para arrependimentos. Aos pais, o velho deixou algum dinheiro, comida e roupas que duraram pouco, mas que aliviaram a dor da despedida.
Na bagagem, Rosemary não trouxera saudades. Se a falta do cheiro do mar se confundiu, por vezes, com alguma lágrima atrevida, logo se apressava a enxugá-la com um “Tu estás é tola! A chorar por causa da falta do cheiro do mar?!”, mesmo com Luiz Sanchez a esperá-la, de sorriso enorme, chupa-chupa na mão para lhe oferecer, à saída do mercado do peixe. Era um amor de Primavera que o destino se apressou a fazer morrer de fome. Pelo menos, tinha a certeza do que não queria: ser igual à mãe, carregada de filhos, da barriga aos ombros, lambuzada de ranho, rota, suja e sem pão. Fugiu da miséria e das estórias líricas da avó Purificación, que mascava tabaco e cuspia palavras com lostras de saliva preta quando narrava casos duma guerrilha que não conduziu o povo a paraíso nenhum. Rosemary fazia que acreditava na virtude dos tiros e, enquanto a avó se engasgava, deixando à vista a ferida da sua boca desdentada, ela planeava a fuga daquele inferno de gente pobre. O velho americano fora mais que sorte grande.
Ao divorciar-se, Rosemary era dona de um pequeno apartamento, de um carro ainda em bom estado e de dinheiro suficiente para cursar enfermagem e assistência social.


Álamo Oliveira, já não gosto de CHOCOLATES

sábado, 25 de abril de 2009

quarta-feira, 22 de abril de 2009

DIA DA TERRA todos os dias

Quem, em seu perfeito juízo,
trataria assim a sua CASA?


quinta-feira, 9 de abril de 2009

quinta-feira, 5 de março de 2009

Caravelas doiradas a bailar...

Florbela Espanca [Vila Viçosa, 1894 - Matosinhos, 1930]

CARAVELAS…

Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!...
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

*
Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

*

Se eu sempre fui este Mar Morto,
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!

*

Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...


Florbela Espanca



sábado, 24 de janeiro de 2009

O Consumismo e o Natal

Olhar o Natal doutra forma é necessário e urgente, quer se seja ou não cristão. Não posso deixar de estar de acordo com o texto que se segue e, por isso, o divulgo aqui, agradecendo ao meu sobrinho Cucas que mo enviou.



Tempo de simplicidade

Quem aposta num mundo melhor não pode deixar de pensar em consumir de uma forma consciente e crítica e de optar por um estilo de vida simples.
O Natal, a festa do nascimento de Jesus Cristo, que veio ao mundo num simples e pobre estábulo de Belém, tornou-se, paradoxalmente, pretexto para a mais extravagante orgia de consumo. Um tempo que deveria ser de maior espiritualidade, para podermos acolher devidamente o dom de Deus, deu lugar à mais superficial e materialista época do ano. Em vez de recolhimento, só vemos azáfama e corrida aos centros comerciais.
Para muitos, o consumo é uma forma de compensar a insegurança, a insatisfação afectiva, social e espiritual. Para outros, é apenas uma moda, uma maneira de se conformarem com os padrões sociais vigentes. Gozar o mais que se pode, sem olhar a despesas. Para a maioria, pagar não parece ser um problema, e, quando o é, há sempre a hipótese do recurso ao crédito.
O Evangelho ensina a simplicidade, a sobriedade de vida e a partilha. Por sua vez, a cultura dominante induz à aquisição do supérfluo, ao consumo e ao esbanjamento. A poupança e a austeridade já não se usam. Como se prova pela inutilidade da maior parte das nossas prendas.
O consumo tornou-se o motor da economia. Para crescer, o modelo socioeconómico liberal que nos governa requer muita produção, compra, consumo e desperdício. A publicidade encarrega-se de difundir a «alma» do sistema: compra, usa e deita fora. O contrário do Evangelho, que nos ensina a renúncia, a gratuitidade e a partilha.
Quem aposta num mundo melhor não pode deixar de pensar em consumir de uma forma consciente e crítica e de optar por um estilo de vida simples. Porque não pode esquecer o elevado número de excluídos do «banquete da abundância» e as ameaças que pairam sobre o futuro do planeta.
Ao contrário do que se pensa, o consumo não é um acto privado, que depende apenas dos próprios gostos e capacidade económica. O exagero tem consequências nefastas. Em primeiro lugar para nós: somos submersos pelo lixo que produzimos; padecemos das doenças ligadas à superalimentação; e somos atacados pelas neuroses derivadas de muitas insatisfações e da vida frenética que levamos.
Depois, o nosso consumismo tem por detrás um problema social de dimensão planetária. Uma grande parte do preço do que para nós é supérfluo é pago pelos povos do Sul, que vêem agravar-se ainda mais as suas precárias condições de vida. Se todos os habitantes da Terra consumissem o que nós consumimos, seriam necessários seis planetas para utilizar como fonte de matérias-primas e como lixeira dos nossos desperdícios.
O Norte, que representa apenas 23 por cento da população mundial, consome mais de 80 por cento das reservas da Terra. Deste modo, condena à pobreza os outros dois terços da humanidade.
A produção e o consumo exagerados põem também em causa o futuro do planeta. Na agricultura, o uso maciço de fertilizantes e pesticidas envenena os lençóis de água; os efluentes industriais poluem os rios e os campos; os gases emitidos pela indústria e pelos veículos fazem aumentar o efeito de estufa, que por sua vez está na origem de catástrofes naturais; a sobre-exploração dos recursos empobrece a terra e os seus guardiões.
Uma vida mais sóbria não significa um retrocesso na qualidade de vida, o regresso à antiguidade e a uma alimentação deficiente. Exprime-se num estilo de vida que sabe distinguir entre as necessidades reais e as supérfluas; e tem em conta as exigências espirituais, afectivas, intelectuais e sociais de cada pessoa. Por isso, não esquece a partilha e a doação de si.


José Rebelo
Revista Além-Mar
(Missionários Combonianos)
30Nov2008

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

2009


quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A Crise



SIMENON E A CRISE

1. E a crise cresce... Esconder tal realidade é tapar o Sol com uma peneira. O que não ajuda ninguém. E, por sua vez, desde cima, não se resolve nenhum problema. Ou seja: injectar capital público na banca não levará a nada, enquanto o poder de compra do Zé Povinho -a maioria esmagadora dos portugueses- continuar a diminuir. Não me parece matéria reservada aos iluminados (?) da economia –sente-o e reconhece-o cada um na carteira e na barriga. Desespera e esperneia o neoliberalismo e tenta recompor-se, sempre à custa dos mais vulneráveis? Como se comporta este governo socialista ou irá comportar-se, caso ganhe a próxima legislatura (ainda que em maioria relativa, o que não seria negativo)? A espreitar o andar da carruagem e com o bolso a arder, assinalo o “regresso” de um grande escritor, que da condição humana tudo sabia e quase tudo disse: Georges Simenon. O livro, um romance policial: “A Amiga de Madame Maigret” (Asa). O herói, comissário Maigret. O labirinto dos sentimentos e dos conflitos sociais. Assim mesmo. Quem disse que o policial é género menor? Quem nunca leu “A Dama de Branco”, de Wilkie Collins? Hammett? Patricia Highsmith?...
Georges Simenon

2. ... o mágico Simenon que, em duas penadas, nos mergulha num mundo fascinante e nos revela almas? Nos agarra e apaixona. Desvenda os abismos da nossa natureza, os nossos anseios e frustrações –e a poesia da nossa breve caminhada. Houve quem o considerasse o Balzac do século XX. Fixou uma época e, à maneira do mestre oitocentista, descreveu figuras marcantes. Que diria ele deste nosso tempo irresponsável, canibalesco, indecente –em que os empórios se fazem e desfazem sobre cadáveres?


Manuel Poppe, O Outro Lado
Jornal de Notícias [7.Dez.2008]





domingo, 7 de dezembro de 2008

NAMORO

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
E com letra bonita eu disse que ela tinha
Um sorriso luminoso tão quente e gaiato
Como o sol de Novembro brincando de artista
Nas acácias floridas
Espalhando diamantes
Na fímbria do mar
E dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia – era sumaúma…
Sua pela macia, da cor do jambo,
Cheirando a rosas, sua pele macia
Guardava as doçuras do corpo rijo
Tão rijo e tão doce – como o maboque…
Seus seios, laranjas – laranjas do Loje
Seus dentes… - marfim…

Mandei-lhe esta carta
E ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
Que o amigo maninho tipografou:
“por ti sofre o meu coração”
Num canto – SIM, noutro canto – NÃO

E ela o canto do NÃO dobrou




Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro…
e ela disse que não

Levei à Avó Chica, quimbanda de fama,
A areia da marca que o seu pé deixou
Para que fizesse um feitiço forte e seguro
Que nela nascesse um amor como o meu…
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica
Ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
Paguei-lhe doces na calçada da Missão.
Ficámos num banco do Largo da Estátua,
Afaguei-lhe as mãos…
Falei-lhe de amor… e ela disse que não.


Andei barbado, sujo e descalço
Como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
“Não viu… (ai, não viu…?) não viu Benjamin?”

E perdido me deram no morro da Samba.


Para me distrair
Levaram-me ao baile do Sô Januário
Mas ela lá estava num canto a rir
Contando o meus caso
Às moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram a rumba dancei com ela
E num passo maluco voámos na sala
Qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou:”Aí, Benjamin”
Olhei-a nos olhos – sorriu para mim

Pedi-lhe um beijo... e ela disse que sim.


Letra: Viriato Cruz
Música: Fausto

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

VELHOS


Diz que há-de vir
Uma era justa e boa
Em que o valor da pessoa
Se mantém quando envelhece.
Está no trabalho que fez.
Para conseguir uma coisa como esta
Dava o sangue que me resta
E era como se tivesse
Nascido mais uma vez.

Deram-nos este banco de avenida
Onde a sombra nos dói e a tarde gela
E daqui vemos nós passar a vida
Sem que a vida nos sinta perto dela.
Assim nos atiraram para fora
Das coisas que ajudámos a fazer
Ai, como o Sol aquece pouco agora
Ai, muito custa, à noite, adormecer.

Diz que há-de vir, etc.

Fomos pedreiros, varredores, ardinas
Fizemos casas, cultivámos terras,
Criámos gado, entrámos pelas minas
Demos os filhos para as vossas guerras
Demos as filhas para vos servir
Cortámos lenha para a vossa fogueira
E o tempo a ir-se e a gente a pressentir
Que vos demos, sem querer, a vida inteira.

Diz que há-de vir, etc.

E ainda é sangue que nas veias corre
Ainda raiva que nos dobra a mão
Ainda como um sonho que não morre
No nosso velho e atento coração.

Diz que há-de vir, etc.

Afonso Dias

domingo, 23 de novembro de 2008

Andorinha de bigodes

Andorinha-do-mar-inca
[Larosterna Inca]

Foto: Mafalda Frade
De penas pretas, bico e patas vermelhos e uns singulares bigodes brancos, esta andorinha vive em grandes em bandos e passa o Verão nas costas do Peru e do Norte do Chile. Aqui constrói os ninhos em fendas de rocha, em velhas tocas de pinguim ou de qualquer outra ave marinha. No Inverno, muda-se quer para as zonas costeiras do Equador e do Centro do Chile. No mar, alimenta-se de peixes mergulhando o bico na água. Sempre atenta, aproveita para pescar, enquanto os leões-marinhos, as baleias ou os corvos-marinhos se alimentam de grandes cardumes.
No entanto, as alterações, que se estão a verificar, das correntes marítimas diminuem a quantidade de alimento nesta costa, afectando as espécies que aí habitam. Muitas ficam sem alimento, como é o caso desta andorinha-do-mar. A pesca excessiva da anchova, seu alimento favorito, associada à indústria que recolhe os dejectos (guano) destas e de outras aves, faz com que esta andorinha corra o risco de extinção.
Na Natureza, existem apenas cerca de 150 mil indivíduos. No Oceanário de Lisboa, no habitat do Antárctico, junto aos pinguins, há uma família de andorinhas-do-mar. Se as for visitar, não se surpreenda se algum deles lhe atirar com um peixe. Fazem isso quando querem namorar.
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Curiosidade: quando jovens, têm penas castanhas e o bico e as patas cinzentos.

Texto: Oceanário; Fonte: Terra do Nunca

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Ainda actual?...


Cinquenta anos para trás

Somos o que somos por termos sido o que fomos
Eduardo Lourenço
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E fomos coisas espantosas ao longo da nossa história. O que nos tem faltado? Ambição e cultura de rigor e de responsabilidade. O que nos tem sobrado!? Para uns medo do sucesso conquistado com trabalho e seriedade. Para outros, inveja dos que têm sucesso. Para outros ainda, a total falta de oportunidades. Temos um país que, atingindo um nível mais elevado, em vez de continuar a lutar por fazer ainda melhor fica descansado à espera não sei bem de quê. O resultado é evidente. Baixa-se de patamar e gastam-se anos e anos para acordarmos de novo. Só que nessa altura o atraso em relação aos outros países já é enorme e difícil de recuperar. Confesso que por vezes me trespassa um enorme cansaço. Desde pequenito que protesto (defeito meu, talvez), que não me adapto a partidos nem a sindicatos, nem a igrejas, nem à injustiça. Então protesto com a consciência tranquila de quem não se limita a protestar mas indica alternativas.

Protesto contra o facto de haver maternidades sem as condições mínimas estabelecidas pela Comissão Nacional de Saúde Materna e Neonatal (CNSMN) e outras maternidades receptoras que não parecem estar a respeitar as regras estabelecidas pela CNSMN.

Claro que há serviços de pseudo-urgências a mais. Era preciso encerrá-los. Mas mais uma vez foi feito o mais fácil. Encerrou-se sem cuidar de observar as condições propostas pela Comissão Técnica Nacional criada para o efeito, deixando as populações sem alternativas e sem explicações. Os resultados estão à vista.

No denominado Centro Hospitalar do Porto (Hospital Stº António, Hospital Maria Pia e Maternidade Júlio Dinis) na área Materno Neonatal e Infantil vão gastar-se milhões para tudo ficar pior. Em relação aos países modernos vamos regredir cerca de cinquenta anos! As crianças vão continuar num hospital de adultos. As grávidas de alto risco saem de um hospital multidisciplinar e vão para uma maternidade monovalente! Precisamente o contrário do que devia ser feito.

Veremos os resultados.

Dizem-me também que as crianças deficientes e com dificuldades de aprendizagem vão deixar de ter apoio de profissionais formados para o efeito (muitos no desemprego). Não quero acreditar que seja verdade. Se é, é muito, mesmo muito mau.

A palavra de ordem parece ser cortar. Cortar em tudo sem serem oferecidas alternativas de qualidade. Segundo se lê nos jornais, parece que só não se corta nas reformas e indemnizações inacreditáveis a alguns gestores. Num país com famílias com uma taxa de endividamento tão alta e um salário tão baixo isto não é justo.

Octávio Cunha (Médico pediatra)
Notícias Magazine [10.Fev.2008]

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Para quando?

DISCERNIMENTO
É difícil compreender como alguns homens podem matar ou mandar matar população inocente, com a ideia de que isso servirá os seus interesses e, eventualmente, os interesses da Humanidade. Os ditos terroristas são seres capazes de oferecerem a sua própria vida enquanto espalham o terror, na defesa dos seus ideais.
Parecem considerar-se seres iluminados, conhecedores de algo que a maioria não reconhece e capazes de lutarem pela imposição das suas ideias, como se a interrupção da vida física - dos outros e da sua - seja um mal menor. Por vezes até se animam, construindo no seu imaginário a possibilidade de uma recompensa celestial pelo que consideram ousadia, bravura ou heroicidade.
Em Israel, em Nova Iorque, no Iraque ou em Madrid matam inocentes e mata~m-se, de uma forma aparentemente cega, inabalável e terrivelmente destruidora. Talvez de um modo comparável ao que os Cruzados utilizaram há alguns séculos. Talvez de uma forma menos subtil do que a utilizada ainda nos nossos dias por alguns governantes que mandam despejar bombas ou invadir militarmente países terceiros, mas urdindo uma teia de explicações políticas que possam tornar aparentemente credível tal atitude, ainda que para isso seja necessário utilizar habilmente a mentira, a hipocrisia e outros antivalores.
Em qualquer desses casos esquecendo-se que o ódio gera mais ódio. Não percebendo ou não querendo perceber que a evolução é algo que se conquista e que não resulta impor. Omitindo que a verdadeira evolução se consegue no respeito por todos.

Tal como na escola o aluno só aprende quando se esforça para isso e não quando alguém lhe impõe que tem de saber, também na vida a evolução das pessoas e dos povos só acontece quando aprendem por si próprios e não porque lhes é imposto. Tal como na escola o aluno necessita de ter condições mínimas para aprender (logísticas, pedagógicas, etc.), também na vida as pessoas e os povos necessitam de ter condições mínimas para fazerem a sua própria evolução (sanitárias, económicas, etc.).

Tal como na escola o aprendizado individual não prejudica o colectivo, pelo contrário pode servir de apoio ou incentivo ao aprendizado dos colegas, também na vida a verdadeira evolução individual ou de qualquer grupo só poderá ser a que não prejudica o colectivo, mas, pelo contrário, pode servir de apoio ou de incentivo à evolução de terceiros.

Tal como na escola o professor consegue tão melhores resultados quanto mais conquista a atenção dos alunos e desenvolve neles o prazer de adquirirem conhecimentos pelo seu esforço próprio, também na vida real os grandes líderes se distinguem por conquistarem a atenção dos membros dos seus grupos e de os galvanizarem no sentido de fazerem a sua trajectória evolutiva pelo seu esforço, evitando prejudicar seja quem for.

Enquanto os povos mais abastados e os seus líderes não perceberem a necessidade de reverem o arcaico e injusto sistema de trocas, que permite uma enorme desigualdade de condições com os povos do chamado terceiro mundo, será difícil criar condições de desenvolvimento verdadeiramente sustentável e de evolução pacífica para a Humanidade.

Enquanto os povos mais abastados ignorarem a miséria e a fome que matam milhões de pessoas em certas regiões mais desfavorecidas, não procurando solidariamente conquistar a atenção desses povos para o prazer de construírem um futuro melhor pelo seu próprio esforço, será difícil acabar com ódios e guerras entre seres que se autoproclamam de racionais, mas que demonstram ainda grande dificuldade em raciocinar com discernimento.

Luís Portela, O Prazer de Ser

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

REFLECTIR COM LUÍS PORTELA


Reverência

Reverência pode ser sinónimo de mesura, cumprimento, tratamento especial dado a membros do clero, ou respeito pelas coisas consideradas sagradas.
Mas também pode querer dizer respeito pela Vida; respeito pela vida em todas as suas formas. Desejar não prejudicar ou destruir e assumi-lo progressivamente. Ser capaz de fazer o seu próprio trajecto evolutivo de uma forma equilibrada e harmoniosa perante o Todo Universal.
Reverência será então uma forma profunda de contacto com a Vida, para além do invólucro das aparências, procurando penetrar na essência. Será procurar perceber o seu próprio estado de ser, bem como a essência de cada pessoa, animal, planta, coisa. Será uma forma solidária de estar ou, mesmo, de ser. Implica somar ou multiplicar, nunca subtrair. Passa por construir e desenvolver, apoiar, partilhar e dar. Será uma forma responsável de estar ou, mesmo, de ser. Implica perceber a sua verdadeira força interior e a sua apreciável capacidade de realização. Passa por perceber, interiorizar, aprender como o pensamento, a palavra e a acção determinam a natureza das vivências. Está para além do respeito, porque este implica um juízo, uma reacção à percepção de qualidades que aprendemos a admirar, as quais podem variar de acordo com a cultura preponderante. Assim, o que é respeitado por umas pessoas pode não ser respeitado por outras. Mas a reverência todos a merecem e quem a assume fá-lo indiscriminadamente. A reverência deve permitir analisar serenamente o que se passa consigo e em torno de si no enquadramento da evolução do seu próprio eu e de todos aqueles que evoluem à volta (nos diferentes reinos da natureza). Deve permitir perceber o significado de cada criatura e das suas experiências no contexto universal. Deve conduzir à situação de já não se poder prejudicar a Vida, ao se sentir e assumir como parte dela. Uma pessoa reverente deve honrar a Vida em todas as suas formas e em todas as suas vertentes. O que parece fazer sentido é que todos acabem, mais cedo ou mais tarde, por atingir esse estado. Talvez as nossas escolhas se limitem a quando é que isso irá acontecer, bem como ao tipo de vivências que teremos para lá chegar
.


Luís Portela
Jornal de Notícias, 30.07.2008

quinta-feira, 26 de junho de 2008

CANSAÇO


O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
***
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
***
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
***
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade, infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo,íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos
[Fernando Pessoa]

quinta-feira, 12 de junho de 2008

PALAVRAS E GESTOS

Palavras

Palavras doces
Proferidas por uma
Boca lânguida
E sedenta de amor.

Palavras quentes
Que aquecem
Os corpos frios
De solidão.


Palavras que encaixam,
Num mundo imperfeito
Vão dando cor
E alívio à alma
Num mundo imperfeito
Onde impera a dor
E o descontentamento.

Até ao dia,
Em que as palavras
Deixam de ser palavras
Para serem gestos.

Marta Rietsch Monteiro

quinta-feira, 22 de maio de 2008

ALERTA VERMELHO

Tsunami silencioso
***********************

Está adiado o sonho de o prémio Nobel da Paz, o bengali Muhammad Yunus, impulsionador do microcrédito, ver a fome restringida a museus para que o ser humano nunca se esquecesse das tragédias que a fome provoca. A fome foi e é, mais do que as guerras e a peste, a pior arma de destruição maciça. Foi e é responsável por inúmeros e silenciosos morticínios humanos.
Com a incompetência, a indiferença e a ganância instaladas há décadas na governação global, nos seus aliados institucionais (FMI, BM, OMC…) e em alguns fundos globais, sem ética, continuaremos a observar por muito tempo o nefando quadro da fome: ela instalou-se no nosso seio e já está a ceifar milhões de vidas.
As causas do espectro da fome global são múltiplas, todas previsíveis e evitáveis, não fossem os aprendizes de feiticeiro já citados terem dado ou obtido de bandeja todas as oportunidades para agravarem o mortífero tsunami silencioso da fome. De desregulamentação em desregulamentação, chegou-se à desenfreada especulação sobre os alimentos, prevendo a ONU que se possa chegar, se medidas estruturantes urgentes não forem tomadas, ao morticínio de cem milhões de pessoas! E não falo dos sofrimentos que o espectro da fome provoca, como aquele que observei na fronteira entre Jalalabad (Afeganistão) e Peshawar (Paquistão): adultos e crianças, tentando passar sorrateiramente, evitando bastonadas, alguns quilos de farinha para sobreviver! Nesse jogo do gato e do rato, uma menina afegã de oito anos morreu, marcando indelevelmente a minha consciência humana.

Que medidas estruturantes globais têm de ser já tomadas para acabar com a verdadeira escravidão biológica que é a fome? Impedir a especulação financeira sobre os alimentos, a grande detonadora do cataclismo actual; proibir a produção de biodiesel com alimentos e em áreas agrícolas destinadas à alimentação dos seres humanos e animais (há alternativas!); adoptar medidas que evitem o agravamento das alterações climáticas a médio prazo, dado que algumas das suas consequências já são irreversíveis; aumentar as áreas de cultivo destinadas a seres humanos e animais. Já o falecido professor Josué de Castro, antigo presidente da FAO, demonstrava no seu magistral livro Geopolítica da Fome que o planeta, se bem gerido, poderia alimentar o dobro da população actual; regulamentar e controlar o preço dos combustíveis! Nunca as empresas petrolíferas e os estados ganharam tanto dinheiro como agora; acabar com as guerras travadas sob pretextos falaciosos e com as violações do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas que só criaram mais refugiados e mais conflitos. E por isso, também, mais esfomeados; aliviar a asfixia que sufoca os países mais pobres, perdoando-lhes as dívidas e os juros e bloquear as contas faraónicas dos seus corruptos governantes, a fim de se criar um fundo de desenvolvimento para esses países; acabar com as monoculturas de exportação, nos países economicamente subdesenvolvidos, incentivadas ou impostas pelos funestos planos de (des)ajustamento estrutural do FMI e BM; implementar um comércio justo entre os países ricos e pobres.
Não é com a injecção pontual de milhões de euros que se resolve a epidemia da fome. Se não se aplicarem as medidas estruturais referidas, o genocídio pela fome vai agravar-se. As primeiras vítimas dessa praga social criada pelo homem são sempre as mesmas: os miseráveis dos países mais pobres. Por efeito de ricochete, seremos todos atingido. Temos de reagir todos e agora, pois o espectro da fome já está entre nós!


Fernando Nobre, Presidente da AMI

sexta-feira, 16 de maio de 2008

A VERGONHA DOS RECIBOS VERDES

Verdes e no "limbo"
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Andam por aí uns tipos "fartos de recibos verdes". Não é a cor do recibo que os incomoda, é a discriminação a que tresanda. Cumprem horário, como o parceiro do lado. Estão, como ele, sob cutelo disciplinar. Podem até ser mais competentes. Mas são descartáveis, provisórios. Estão de passagem, quantas vezes para o desemprego.
Quando ouviram o Governo garantir que iria combater a precariedade, acalentaram a secreta esperança de que a sua vida melhoraria. Os que trabalham para o Estado, então, devem ter pensado que a vontade política proclamada se converteria em letra de forma. Se a uniformização entre os regimes privado e público era apontada como a chave das mudanças legislativas em curso, abria-se uma janela.
Pura ilusão! O Governo, que via Código do Trabalho quer limitar a três anos a contratação a termo no sector privado - penalizando até, fiscalmente, o recurso a esta modalidade - propõe-se reservar para o Estado o direito de deixar os seus trabalhadores precários a penar durante seis anos. Sem qualquer perspectiva de virem a conquistar um vínculo estável.
Porquê o tratamento diferenciado? Arrisque-se uma resposta. Cruzando esta medida com umas quantas aposentações (o despedimento puro e simples - ainda - não é possível) pode o Governo apresentar os resultados da dieta de emagrecimento que tem vindo a impor.
Mantendo os que só dispõem de recibo verde no "limbo" laboral, o Estado compõe o ramo, no que toca ao número de funcionários. Afinal, eles não passam de um "anexo" das estatísticas. Trabalham, mas nem um contrato possuem. São mais ou menos clandestinos, mesmo se indispensáveis ao funcionamento dos serviços. Ficam é mais em conta. É isso que importa.

Paulo Martins, in “De ciência incerta”, Jornal de Notícias [15.05.2008]

terça-feira, 6 de maio de 2008

Porque a TERRA é a nossa CASA...

Com os meus agradecimentos a Bernardino Guimarães pela luta que trava em prol da nossa Casa comum.
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Sobre a Terra

Enquanto os tambores comunicacionais faziam ecoar a crise alimentar mundial, a tal que ninguém previu e ninguém preveniu, comemorou-se o Dia da Terra, celebrado a 22 de Abril. Mesmo com escassa tradição entre nós, a efeméride não passou totalmente despercebida em Portugal. E falou-se do estado do planeta, das mazelas que lhe conhecemos, da nossa responsabilidade nas doenças planetárias, do que podemos fazer para lhe baixar, ao planeta, a febre e o esgotamento.
Falou-se inevitavelmente em "salvar a Terra". Mas será esse o apelo exacto, e necessário? Talvez, porque simplificando, a tarefa tem essa dimensão. Mas a Terra devia preocupar-nos porque vivemos nela e dela. Egoísmo humano? Verdade é que o nosso pequeno planeta azul passou muito tempo sem nós. A presença humana ocorre no último minuto, se considerarmos o tempo de vida que a Terra já leva, e mesmo a maravilhosa aventura da vida decorreu, na maior parte da sua lenta evolução, sem sinais do "Homo Sapiens Sapiens". Mais ainda da mesma forma, a Terra passaria muito bem sem nós. Apesar dos estragos que lhe infligimos, se por acaso desaparecêssemos, a vida encontraria os seus caminhos sem esta espécie diferente e inquieta que é a nossa. Um ambiente terrestre tornado hostil à presença e prosperidade dos humanos, inviabilizando a civilização orgulhosa que construímos, não seria necessariamente vazio e estéril.
Há pouco tempo, causou sensação nos Estados Unidos e não apenas, um livro intitulado "O mundo sem nós" do autor de livros científicos Alan Weisman.
Na obra, uma catástrofe inesperada e brutal (não especificada) leva ao desaparecimento da nossa espécie. Weisman especula então sobre o que aconteceria na que é hoje Nova Iorque, desde o momento do desmoronamento humano até milhões de anos depois.
Os escombros dos arranha-céus durariam décadas, apesar dos incêndios, mas o aço inoxidável das panelas perduraria por milénios e certos plásticos ficariam intactos durante centos de milhares de anos, pelo menos até que micróbios de nova estirpe evoluíssem para poderem consumi-los. Pior memória deixariam os reactores nucleares abandonados perto da grande cidade, porque sem sistemas de refrigeração a água, derreteriam, e o plutónio 239 radioactivo espalhar-se-ia, contaminando tudo nos séculos vindouros e originando estranhas mutações nas plantas e animais. Mas a história acaba com as árvores, estranhas árvores, rebentando os asfaltos de Manhattan e lobos e alces vivendo nos matagais de Wall Street. Mesmo com o chumbo, vertido pelos automóveis, que levaria 35 mil anos a dissipar-se dos solos. Como pormenor curioso, o escritor refere ainda que, passados milhões de anos, transmissões de televisão continuariam a percorrer o espaço exterior, talvez transportando pelo éter algum "reality-show".
A Terra não é uma abstracção. Melhorar o seu estado não deve ser entendido como um acto de generosidade para com a pobre e simpática esfera, cujas fotos captadas do espaço tanto nos comovem. Trata-se da sobrevivência da Humanidade em termos duráveis, mesmo que o nosso cálculo (seria a suprema incoerência) não possa ignorar o destino e o direito à existência dos outros seres vivos, condóminos desta "Nave Espacial Terra".Por isso, quando se vê a indiferença de tanta gente, e a persistência na ideia de "progresso" que nos diz que é preciso "crescer", produzir e consumir até ao paroxismo, apetece dizer que o Dia da Terra, todos os dias, devia ser tempo de pensar no futuro. No nosso, com humano olhar angustiado e esperançoso, medindo bem os passos dentro da única Casa que temos. A partir desta cidade e desta rua.


Bernardino Guimarães, in Jornal de Notícias,
6 de Maio de 2008