segunda-feira, 28 de março de 2011
Deste reino que já não é o meu mundo
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
O Faisão
Esse Natal passei-o no lago de Garda. Era um lugar inquietante, com algo de um porto levantino que se corrompeu a ser estância de moda. E no Inverno, com o soprar do vento alpino, o lago abria-se em cachões de chumbo, gemia como uma mulher no parto. Eu vivia numa casa à beira da água, uma estranha casa amarela com girassóis à entrada. Lawrence habitara perto, a dois quilómetros apenas; e eu pensava no encontro amável que seria o daquele homem numa tarde de chuva, com o seu gorro preto e um caderno de versos. Sentei-me por detrás da janela; o chá sabia a sabão, provavelmente alguém lavara escrupulosamente as chávenas, que tinham dióspiros pintados. Dióspiros ou pequenas begónias, não me lembro. Não havia luz eléctrica, um faisão magro tinha sido cozinhado num fogo de carvão; era um bicho esquelético, revestido de trufas mas nem por isso mais apresentável. Esperei até às onze horas pelos meus convidados; não vieram, e então jantei. Magnífica noite patriarcal, com o bramido do lago e o crepitante tremer dos juncos à beira da água! Acendi dez velas azuis e vesti outro casaco de lã por cima do vestido decotado. No Inverno sempre me visto mal, sempre me foge a alma para o mistério da hibernação, o sono dos ursos polares e o recolhimento dos esquilos. Cândido estalar de folhas secas, o cheiro opaco das peles onde a respiração se condena! O cataléptico Inverno, com o seu obscuro êxtase, a profética doçura do Advento, estação sem risos, religiosa, digna e profundamente compatível com o espírito. Eu deitei três pedrinhas de açúcar na minha xícara, e antes de pegar na colher ouvi uma voz autoritária, mas levíssima:- Acho que estará demasiado doce.
Voltei-me. Não lhes disse que era uma sala quadrada, com quatro metros por cinco, não era bem quadrada, como podem ver. No ângulo da esquerda estava de pé um senhor extremamente bem trajado, de rosto distinto e que se esforçava por parecer louco. Não o conseguia. Via-se que fora esmeradamente educado na infância, e só podia parecer algo excêntrico. É um inglês – pensei –; são bastante conversáveis, se admitimos que desfrutam duma razão periclitante mas sobre-humana.
- Sou David Herbert Lawrence – disse ele. Não esperava isso, e levantei-me com precipitação.
- Seja bem-vindo. Há ainda faisão assado que não é mau. É um faisão de Sirmione. – Ele deitou um olhar de aflição para a mesa onde rechinavam as velas que, por baixo da pintura, eram de horrível sebo. Não achou convidativa a ave triste com os ossos denegridos sob as trufas, e voltou a cabeça evasivamente. – Feliz noite de Natal – acrescentei.
Lawrence sorriu com benevolência e pousou o seu chapéu de feltro, um borsalino cinzento. Era um homem muito decente, limpou os pés duas vezes antes de se aproximar. Depois apanhou o guardanapo que me tinha caído dos joelhos e entregou-mo delicadamente. As pessoas não reparam nestas sugestões do carácter, mas toda uma obra escrita, propícia a ser queimada na Chaminé do Rei, não prova a simples, sincera compleição dum autor; enquanto que os seus pequenos gestos de convívio, a maneira de pegar num objecto sem dar a impressão de se apoderar dele, o modo como entra numa casa sem dar a ideia de que espera demoli-la com o sopro dos seus pulmões, isso define o homem que muitas vezes o mundo recusou. A obra representa a crise e não a norma. Lawrence tomou uma cadeira vitoriana e pôs-se a falar com animação e argúcia.
- Feliz noite de Natal… Contudo, a senhora e eu estamos muito distantes dos nossos costumes, da nossa família, dos bons regalos da meninice, do rum a arder, das coroas de azevinho. Não vejo na sua mesa os severos pratos de abstinência, o azeite de oliveira e as fritas de mel. Para milhões de seres, durante muitos séculos, o Natal foi característica de cada rito; havia decerto, para os mais velhos, um estremecimento fúnebre ao ver vazios os lugares dos ausentes, ou preenchidos com uma alegria terrível. Sim, terrível… - Ele sorriu e estendeu sobre a mesa a sua mão febril. – Quando eu era criança, sempre dormia vestido na noite de Natal. E pensava que um anjo me encontraria pronto para viajar com ele, e me levava… Não é estranho?
- Era um pensamento discreto, mais nada – disse-lhe. Ofereci-lhe chá, mas ele recusou, ainda que tivesse o aspecto exangue e os lábios trémulos.
- Sempre fui discreto, as pessoas não perceberam que ser discreto é o contrário de ser sensato. A discrição pode-nos levar a ser perseguidos, a sofrer julgamentos infames. A sensatez contemporiza, renuncia; a discrição não pactua nunca, espera, confia, convoca, reserva-se. – Olhou para mim bem nos olhos. – O que significa torre de marfim? Ebúrneo é o rosto do que medita, sem paixão, nos mistérios da terra e do céu.
- Pode ser… - E eu pousei a minha mão na borda da mesa. Era uma sólida mesa de nogueira, e eu cobrira-a com uma toalha de estopa, único penhor do meu país e da minha casta. Tornara-me maleável e fina, do muito que a usara. Ela lembrava-me aquele canto escuro da cozinha onde vinham lavar as mãos os criados e os amos, antes de cear; o fumo do petróleo subia das candeias como um risco de grafite. Pensativo Natal era nesse tempo, discreto… Eu certifiquei-me de que não havia mais chá dentro do bule, teria que tomar a minha dose tal como estava, demasiado doce. Nesse momento chegaram os meus convidados; tinham bebido um pouco e riam-se alto, ouvia-os a cem metros de casa, Nesse momento chegaram os meus convidados; tinham bebido um pouco e riam-se alto, ouvia-os a cem metros de casa, procedendo a manobras com o carro. A chuva não era muita, mas o vento continuava a estalar as canas no lago. Lawrence levantou-se e despediu-se correctamente. Tinha uma cara s e despediu-se correctamente. Tinha uma cara surpreendente, de quem sofreu um desgosto anterior à própria razão; como se tivesse presenciado a destruição do amor e lhe sobrevivesse. Submergia com palavras não sabia que medo antiquíssimo e desprovido de memória.
- Esta noite nasce outra vez o Filho de Deus Invisível. – Fez uma pausa breve e disse: - Muitas vezes pensei que me aproximava, que sabia… Restava-me sempre a decepção e o desespero. Foi para minorar a amargura de adorarmos um Deus Invisível que nasceu Jesus. Era um rosto à nossa imagem, mas, porque vinha da parte do Deus Invisível, não o quiseram. Foi por isso. Celebramos a vinda do Homem, mas repelimos o seu Espírito.
Ele pousou um dedo nos lábios. – Discrição, e feliz Natal…
Não o vi sair. Eu retirava da mesa o faisão e deitava fora a minha xícara de chá. Encontraram-me a chorar.
- Não é nada – disse. – Não tenho jantar para vocês.
E fomos a Sirmione comer ravioli.
Agustina Bessa-Luís, Tríptico,
(in Natal (Editora Arcádia – 1978)
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Fernando Pessoa
domingo, 25 de abril de 2010
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Cadernos do Subterrâneo


A tua alma, sim, a tua alma, que não te pertence, que vendes ao mesmo tempo que o teu corpo! Expões a vexames o teu amor com o primeiro bêbado que apareça! O teu amor! Mas isso é tudo, é o teu diamante, o teu tesouro de rapariga, sabes o que é o amor? Há quem, para merecer o amor, esteja pronto a empenhar a alma, a deixar-se matar. E o teu amor, quanto vale agora? Compraram-te toda, és vendida na totalidade, e para que serve pedir amor se sem amor se pode obter tudo? Não existe ofensa mais grave para uma rapariga, não entendes isso? Ouvi dizer que vos deixam divertir, que vos deixam ter amantes. Não passa de uma brincadeira, pobres tolas, uma mentira, um sarcasmo que vos fazem, e vós engolis isso. Será que te ama de verdade, o teu amiguinho? Não acredito. Como pode amar-te, se sabe que basta eu assobiar para que o deixes? É um depravado! Tem alguma estima por ti, por mínima que seja? Que tens de comum com ele? Ele ri-se de ti e, ainda por cima, rouba-te - é esse o amor dele! Do mal o menos, se ele não te bater! Porque ele até, se calhar, te bate. Pergunta-lhe, caso tenhas um, se ele se quer casar contigo. Vai rir-se-te na cara, se não te cuspir em cima, se não te bater, e no entanto ele próprio não vale dois tostões. Por que continuas aqui, a desperdiçar a tua vida? Porque te dão café e comida farta? E dão-te de comer porquê? Se dessem com outra, com uma rapariga honesta, esse bocado de pão ficava-lhe atravessado na garganta, porque saberia por que lho dão. Estás em dívida aqui, vais estar sempre endividada, até ao fim, até ao momento em que os hóspedes já não queiram nada de ti. E isso vai acontecer muito em breve, não contes com a tua juventude. Tudo desaparece num abrir e fechar de olhos, aqui. Vão pôr-te no olho da rua. E não vão contentar-se em pôr-te fora, antes disso vão começar a maltratar-te, a censurar-te, a injuriar-te, como se não tivesses dado a tua saúde, como se não tivesses arruinado por nada a tua alma e juventude, mas como se fosses tu que tivesses deixado a tua patroa na miséria, a deixasses sem nada, como se fosses tu que a espoliasses. E não esperes por apoios: as tuas amigas vão unir-se contra ti para lhe agradar, são todas escravas disto, há muito que perderam a consciência e a caridade. São todas mulheres perdidas, não há nada pior, mais ignóbil, mais asqueroso no mundo do que as injúrias delas. E tu vais deixar tudo aqui, sem poderes salvar nada, a tua saúde, a tua juventude, a tua beleza, as tuas esperanças, aos vinte e dois anos vais ter o aspecto de uma mulher de trinta e cinco, podes dar-te por feliz se não estiveres doente, podes agradecer a Deus. Porque tu pensas, até aposto, que não trabalhas aqui, que te divertes! Mas não há trabalho mais duro no mundo, não há trabalhos forçados que sejam piores que isto. O coração é como se ficasse seco de lágrimas.
domingo, 31 de maio de 2009
ROSEMARY
Álamo Oliveira, já não gosto de CHOCOLATES
sábado, 25 de abril de 2009
quarta-feira, 22 de abril de 2009
quinta-feira, 9 de abril de 2009
quinta-feira, 5 de março de 2009
Caravelas doiradas a bailar...

CARAVELAS…
Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!...
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.
*
Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!
*
Se eu sempre fui este Mar Morto,
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!
*
Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...
Florbela Espanca
sábado, 24 de janeiro de 2009
O Consumismo e o Natal
Quem aposta num mundo melhor não pode deixar de pensar em consumir de uma forma consciente e crítica e de optar por um estilo de vida simples.
O Natal, a festa do nascimento de Jesus Cristo, que veio ao mundo num simples e pobre estábulo de Belém, tornou-se, paradoxalmente, pretexto para a mais extravagante orgia de consumo. Um tempo que deveria ser de maior espiritualidade, para podermos acolher devidamente o dom de Deus, deu lugar à mais superficial e materialista época do ano. Em vez de recolhimento, só vemos azáfama e corrida aos centros comerciais.
Para muitos, o consumo é uma forma de compensar a insegurança, a insatisfação afectiva, social e espiritual. Para outros, é apenas uma moda, uma maneira de se conformarem com os padrões sociais vigentes. Gozar o mais que se pode, sem olhar a despesas. Para a maioria, pagar não parece ser um problema, e, quando o é, há sempre a hipótese do recurso ao crédito.
O Evangelho ensina a simplicidade, a sobriedade de vida e a partilha. Por sua vez, a cultura dominante induz à aquisição do supérfluo, ao consumo e ao esbanjamento. A poupança e a austeridade já não se usam. Como se prova pela inutilidade da maior parte das nossas prendas.
O consumo tornou-se o motor da economia. Para crescer, o modelo socioeconómico liberal que nos governa requer muita produção, compra, consumo e desperdício. A publicidade encarrega-se de difundir a «alma» do sistema: compra, usa e deita fora. O contrário do Evangelho, que nos ensina a renúncia, a gratuitidade e a partilha.
Quem aposta num mundo melhor não pode deixar de pensar em consumir de uma forma consciente e crítica e de optar por um estilo de vida simples. Porque não pode esquecer o elevado número de excluídos do «banquete da abundância» e as ameaças que pairam sobre o futuro do planeta.
Ao contrário do que se pensa, o consumo não é um acto privado, que depende apenas dos próprios gostos e capacidade económica. O exagero tem consequências nefastas. Em primeiro lugar para nós: somos submersos pelo lixo que produzimos; padecemos das doenças ligadas à superalimentação; e somos atacados pelas neuroses derivadas de muitas insatisfações e da vida frenética que levamos.
Depois, o nosso consumismo tem por detrás um problema social de dimensão planetária. Uma grande parte do preço do que para nós é supérfluo é pago pelos povos do Sul, que vêem agravar-se ainda mais as suas precárias condições de vida. Se todos os habitantes da Terra consumissem o que nós consumimos, seriam necessários seis planetas para utilizar como fonte de matérias-primas e como lixeira dos nossos desperdícios.
O Norte, que representa apenas 23 por cento da população mundial, consome mais de 80 por cento das reservas da Terra. Deste modo, condena à pobreza os outros dois terços da humanidade.
A produção e o consumo exagerados põem também em causa o futuro do planeta. Na agricultura, o uso maciço de fertilizantes e pesticidas envenena os lençóis de água; os efluentes industriais poluem os rios e os campos; os gases emitidos pela indústria e pelos veículos fazem aumentar o efeito de estufa, que por sua vez está na origem de catástrofes naturais; a sobre-exploração dos recursos empobrece a terra e os seus guardiões.
Uma vida mais sóbria não significa um retrocesso na qualidade de vida, o regresso à antiguidade e a uma alimentação deficiente. Exprime-se num estilo de vida que sabe distinguir entre as necessidades reais e as supérfluas; e tem em conta as exigências espirituais, afectivas, intelectuais e sociais de cada pessoa. Por isso, não esquece a partilha e a doação de si.
José Rebelo
Revista Além-Mar
30Nov2008
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
A Crise

SIMENON E A CRISE
2. ... o mágico Simenon que, em duas penadas, nos mergulha num mundo fascinante e nos revela almas? Nos agarra e apaixona. Desvenda os abismos da nossa natureza, os nossos anseios e frustrações –e a poesia da nossa breve caminhada. Houve quem o considerasse o Balzac do século XX. Fixou uma época e, à maneira do mestre oitocentista, descreveu figuras marcantes. Que diria ele deste nosso tempo irresponsável, canibalesco, indecente –em que os empórios se fazem e desfazem sobre cadáveres?
Manuel Poppe, O Outro Lado
Jornal de Notícias [7.Dez.2008]
domingo, 7 de dezembro de 2008
NAMORO
E com letra bonita eu disse que ela tinha
Um sorriso luminoso tão quente e gaiato
Como o sol de Novembro brincando de artista
Nas acácias floridas
Espalhando diamantes
Na fímbria do mar
E dando calor ao sumo das mangas
Sua pele macia – era sumaúma…
Sua pela macia, da cor do jambo,
Cheirando a rosas, sua pele macia
Guardava as doçuras do corpo rijo
Tão rijo e tão doce – como o maboque…
Seus seios, laranjas – laranjas do Loje
Seus dentes… - marfim…
Mandei-lhe esta carta
E ela disse que não.
Mandei-lhe um cartão
Que o amigo maninho tipografou:
“por ti sofre o meu coração”
Num canto – SIM, noutro canto – NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro…
e ela disse que não
Levei à Avó Chica, quimbanda de fama,
A areia da marca que o seu pé deixou
Para que fizesse um feitiço forte e seguro
Que nela nascesse um amor como o meu…
E o feitiço falhou.
Esperei-a de tarde, à porta da fábrica
Ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
Paguei-lhe doces na calçada da Missão.
Ficámos num banco do Largo da Estátua,
Afaguei-lhe as mãos…
Falei-lhe de amor… e ela disse que não.

Andei barbado, sujo e descalço
Como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
“Não viu… (ai, não viu…?) não viu Benjamin?”
E perdido me deram no morro da Samba.
Para me distrair
Levaram-me ao baile do Sô Januário
Mas ela lá estava num canto a rir
Contando o meus caso
Às moças mais lindas do Bairro Operário.
Tocaram a rumba dancei com ela
E num passo maluco voámos na sala
Qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou:”Aí, Benjamin”
Olhei-a nos olhos – sorriu para mim
Pedi-lhe um beijo... e ela disse que sim.
Letra: Viriato Cruz
Música: Fausto
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
VELHOS

Uma era justa e boa
Em que o valor da pessoa
Se mantém quando envelhece.
Está no trabalho que fez.
Para conseguir uma coisa como esta
Dava o sangue que me resta
E era como se tivesse
Nascido mais uma vez.
Deram-nos este banco de avenida
Onde a sombra nos dói e a tarde gela
E daqui vemos nós passar a vida
Sem que a vida nos sinta perto dela.
Assim nos atiraram para fora
Das coisas que ajudámos a fazer
Ai, como o Sol aquece pouco agora
Ai, muito custa, à noite, adormecer.
Diz que há-de vir, etc.
Fomos pedreiros, varredores, ardinas
Fizemos casas, cultivámos terras,
Criámos gado, entrámos pelas minas
Demos os filhos para as vossas guerras
Demos as filhas para vos servir
Cortámos lenha para a vossa fogueira
E o tempo a ir-se e a gente a pressentir
Que vos demos, sem querer, a vida inteira.
Diz que há-de vir, etc.
E ainda é sangue que nas veias corre
Ainda raiva que nos dobra a mão
Ainda como um sonho que não morre
No nosso velho e atento coração.
Diz que há-de vir, etc.
Afonso Dias
domingo, 23 de novembro de 2008
Andorinha de bigodes
Foto: Mafalda Frade
De penas pretas, bico e patas vermelhos e uns singulares bigodes brancos, esta andorinha vive em grandes em bandos e passa o Verão nas costas do Peru e do Norte do Chile. Aqui constrói os ninhos em fendas de rocha, em velhas tocas de pinguim ou de qualquer outra ave marinha. No Inverno, muda-se quer para as zonas costeiras do Equador e do Centro do Chile. No mar, alimenta-se de peixes mergulhando o bico na água. Sempre atenta, aproveita para pescar, enquanto os leões-marinhos, as baleias ou os corvos-marinhos se alimentam de grandes cardumes.No entanto, as alterações, que se estão a verificar, das correntes marítimas diminuem a quantidade de alimento nesta costa, afectando as espécies que aí habitam. Muitas ficam sem alimento, como é o caso desta andorinha-do-mar. A pesca excessiva da anchova, seu alimento favorito, associada à indústria que recolhe os dejectos (guano) destas e de outras aves, faz com que esta andorinha corra o risco de extinção.
Na Natureza, existem apenas cerca de 150 mil indivíduos. No Oceanário de Lisboa, no habitat do Antárctico, junto aos pinguins, há uma família de andorinhas-do-mar. Se as for visitar, não se surpreenda se algum deles lhe atirar com um peixe. Fazem isso quando querem namorar.
Texto: Oceanário; Fonte: Terra do Nunca
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Ainda actual?...

Somos o que somos por termos sido o que fomos
Protesto contra o facto de haver maternidades sem as condições mínimas estabelecidas pela Comissão Nacional de Saúde Materna e Neonatal (CNSMN) e outras maternidades receptoras que não parecem estar a respeitar as regras estabelecidas pela CNSMN.
Claro que há serviços de pseudo-urgências a mais. Era preciso encerrá-los. Mas mais uma vez foi feito o mais fácil. Encerrou-se sem cuidar de observar as condições propostas pela Comissão Técnica Nacional criada para o efeito, deixando as populações sem alternativas e sem explicações. Os resultados estão à vista.
No denominado Centro Hospitalar do Porto (Hospital Stº António, Hospital Maria Pia e Maternidade Júlio Dinis) na área Materno Neonatal e Infantil vão gastar-se milhões para tudo ficar pior. Em relação aos países modernos vamos regredir cerca de cinquenta anos! As crianças vão continuar num hospital de adultos. As grávidas de alto risco saem de um hospital multidisciplinar e vão para uma maternidade monovalente! Precisamente o contrário do que devia ser feito.
Veremos os resultados.
Dizem-me também que as crianças deficientes e com dificuldades de aprendizagem vão deixar de ter apoio de profissionais formados para o efeito (muitos no desemprego). Não quero acreditar que seja verdade. Se é, é muito, mesmo muito mau.
A palavra de ordem parece ser cortar. Cortar em tudo sem serem oferecidas alternativas de qualidade. Segundo se lê nos jornais, parece que só não se corta nas reformas e indemnizações inacreditáveis a alguns gestores. Num país com famílias com uma taxa de endividamento tão alta e um salário tão baixo isto não é justo.
Octávio Cunha (Médico pediatra)
Notícias Magazine [10.Fev.2008]
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Para quando?
Tal como na escola o aluno só aprende quando se esforça para isso e não quando alguém lhe impõe que tem de saber, também na vida a evolução das pessoas e dos povos só acontece quando aprendem por si próprios e não porque lhes é imposto. Tal como na escola o aluno necessita de ter condições mínimas para aprender (logísticas, pedagógicas, etc.), também na vida as pessoas e os povos necessitam de ter condições mínimas para fazerem a sua própria evolução (sanitárias, económicas, etc.).
Tal como na escola o aprendizado individual não prejudica o colectivo, pelo contrário pode servir de apoio ou incentivo ao aprendizado dos colegas, também na vida a verdadeira evolução individual ou de qualquer grupo só poderá ser a que não prejudica o colectivo, mas, pelo contrário, pode servir de apoio ou de incentivo à evolução de terceiros.
Tal como na escola o professor consegue tão melhores resultados quanto mais conquista a atenção dos alunos e desenvolve neles o prazer de adquirirem conhecimentos pelo seu esforço próprio, também na vida real os grandes líderes se distinguem por conquistarem a atenção dos membros dos seus grupos e de os galvanizarem no sentido de fazerem a sua trajectória evolutiva pelo seu esforço, evitando prejudicar seja quem for.
Enquanto os povos mais abastados e os seus líderes não perceberem a necessidade de reverem o arcaico e injusto sistema de trocas, que permite uma enorme desigualdade de condições com os povos do chamado terceiro mundo, será difícil criar condições de desenvolvimento verdadeiramente sustentável e de evolução pacífica para a Humanidade.
Enquanto os povos mais abastados ignorarem a miséria e a fome que matam milhões de pessoas em certas regiões mais desfavorecidas, não procurando solidariamente conquistar a atenção desses povos para o prazer de construírem um futuro melhor pelo seu próprio esforço, será difícil acabar com ódios e guerras entre seres que se autoproclamam de racionais, mas que demonstram ainda grande dificuldade em raciocinar com discernimento.
Luís Portela, O Prazer de Ser













