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quinta-feira, 5 de março de 2009

Caravelas doiradas a bailar...

Florbela Espanca [Vila Viçosa, 1894 - Matosinhos, 1930]

CARAVELAS…

Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!...
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

*
Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

*

Se eu sempre fui este Mar Morto,
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!

*

Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...


Florbela Espanca



domingo, 7 de dezembro de 2008

NAMORO

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
E com letra bonita eu disse que ela tinha
Um sorriso luminoso tão quente e gaiato
Como o sol de Novembro brincando de artista
Nas acácias floridas
Espalhando diamantes
Na fímbria do mar
E dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia – era sumaúma…
Sua pela macia, da cor do jambo,
Cheirando a rosas, sua pele macia
Guardava as doçuras do corpo rijo
Tão rijo e tão doce – como o maboque…
Seus seios, laranjas – laranjas do Loje
Seus dentes… - marfim…

Mandei-lhe esta carta
E ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
Que o amigo maninho tipografou:
“por ti sofre o meu coração”
Num canto – SIM, noutro canto – NÃO

E ela o canto do NÃO dobrou




Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro…
e ela disse que não

Levei à Avó Chica, quimbanda de fama,
A areia da marca que o seu pé deixou
Para que fizesse um feitiço forte e seguro
Que nela nascesse um amor como o meu…
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica
Ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
Paguei-lhe doces na calçada da Missão.
Ficámos num banco do Largo da Estátua,
Afaguei-lhe as mãos…
Falei-lhe de amor… e ela disse que não.


Andei barbado, sujo e descalço
Como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
“Não viu… (ai, não viu…?) não viu Benjamin?”

E perdido me deram no morro da Samba.


Para me distrair
Levaram-me ao baile do Sô Januário
Mas ela lá estava num canto a rir
Contando o meus caso
Às moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram a rumba dancei com ela
E num passo maluco voámos na sala
Qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou:”Aí, Benjamin”
Olhei-a nos olhos – sorriu para mim

Pedi-lhe um beijo... e ela disse que sim.


Letra: Viriato Cruz
Música: Fausto

quinta-feira, 12 de junho de 2008

PALAVRAS E GESTOS

Palavras

Palavras doces
Proferidas por uma
Boca lânguida
E sedenta de amor.

Palavras quentes
Que aquecem
Os corpos frios
De solidão.


Palavras que encaixam,
Num mundo imperfeito
Vão dando cor
E alívio à alma
Num mundo imperfeito
Onde impera a dor
E o descontentamento.

Até ao dia,
Em que as palavras
Deixam de ser palavras
Para serem gestos.

Marta Rietsch Monteiro