Mostrar mensagens com a etiqueta literatura portuguesa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta literatura portuguesa. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 17 de junho de 2011

La Coca


À chegada a Lanhelas estranhei a casa. Com os seus dois andares e adega, o pomar em volta, a nascente donde a água brotava para um tanque com rãs, pareceu-me demasiado grande para os meus pais e para mim. Soturna também, como se encerrasse uma ameaça.
A paisagem de campos e bosques que se via do meu quarto, o rio, as serranias, a nesga de mar ao pé de Santa Tecla, isso de facto seduziu-me. Mas era serenidade demais, beleza demais, um equilíbrio tão perfeito que logo me faltou a desordem e o bulício a que me tinha habituado na infância, quando da minha janela olhava para o Porto.
Aqui tudo respirava paz. Em vez da cacofonia citadina os ruídos eram distintos, cada galo esperava o seu momento de poder cantar, o ladrar dos cães espaçado como um diálogo. Na estrada o trânsito era quase nulo. Durante o dia inteiro passavam na linha uns quatro ou cinco comboios, mas o silvo das locomotivas e o matraquear das rodas nos carris ouvia-se de longe, ia crescendo gradualmente, chegava, diminuía, era apenas um traço sonoro a vibrar por instantes na quietude do ar.
Como ainda hoje, casas a fazer rua só as havia no centro da aldeia. As outras espalhavam-se pela encosta, nos campos próximos da estrada, juntavam-se aqui e além num beco. Por isso junto da nossa raras vezes se ouviam sinais de gente, era surpresa maior quando, chuva ou sol, os ranchos que trabalhavam nas leiras subitamente entoavam em coro as cantigas dolentes da tradição, a alegre harmonia das quatro vozes cobrindo como um véu a tristeza e a saudade dos versos que falavam de amores perdidos, de ausências, de felicidades nunca sentidas.

∫∫∫∫∫∫∫∫

É certo que havia o dinheiro do contrabando, mas esse infelizmente não cabia a todos. Para ganhá-lo era preciso mostrar força, ter capacidade de sacrifício, gosto do risco, um traço de crueldade e indiferença de carácter que poucos possuíam. Por isso a aldeia tinha a sua elite de contrabandistas e uma infantaria de carrejões, pescadores-espias, moços de recados. Abaixo desses viviam os jornaleiros do campo, os serventes das pedreiras, os quase pobres de pedir que, levados pela fome, iam emigrando em pequenos saltos. Primeiro a pé, para Viana. Meses depois, arranjando um pecúlio e um fatinho decente, de comboio para o Porto. Mais meses, ou anos, de comboio para Lisboa. Até que finalmente, poupando migalhas, chegava a hora de comprar passagem no navio e fazer a grande travessia para o desconhecido do Brasil, da América, da Venezuela, do Canadá, para onde iam com o credo na boca e um grande medo de que a vida lhes corresse mal.

J. Rentes de Carvalho, La Coca









sábado, 30 de abril de 2011

Coração do Bosque

Foto tirada de:



1. Ergue-se a voz deste homem que sente, cada vez mais próxima, a respiração da morte. “Venham todos”, diz ele, rouco e magnânimo. E os filhos, espalhados pelo mundo, obedecem-lhe. Cinco percursos convergindo para o velho solar que emerge da bruma, na margem direita do Lima, casa grande e apalaçada convertida ao turismo de habitação, fonte de rendimento cinco vezes por ano. Os filhos regressam ao lugar da infância, à silhueta de pedra desenhando-se atrás do mesmo portão ferrugento e das mesmas videiras retorcidas, memória viva dos Verões que pareciam eternos mas não eram. Tantos anos depois, o patriarca disse: “Venham todos.” E eles vieram.

2. Espalhados pelos sofás da sala principal: Cármen, Filomena, Constança, Baltasar e Guilherme. Pernas cruzadas. Cigarrilhas acesas. Mãos tensas ajeitando blusas de seda e calças de veludo côtelé. Um silêncio constrangido. O tiquetaque do relógio vertical. Cinzas mortas na lareira apagada. Pela janela, a luz púrpura do crepúsculo. Filomena aproxima-se da varanda, abre a porta de vidro, espreita lá para fora. O jardim mantém o rigor geométrico das sebes, a elegância britânica da relva cortada muito rente. Do lado esquerdo, um caminho de terra através do pomar de laranjais e entre a folhagem, cheio de brilhos, o movimento lento do rio. À direita, o curral, as colmeias, uma pequena horta, o poço e o bosque de pinheiros bravos, agora estranhamente encolhido e sombrio. Filomena vira-se para dentro. “Lembram-se?” Os outros olham uns para os outros, como se tivessem vergonha.

3. À mesa do pequeno-almoço. Toalha de linho, chávenas de porcelana holandesa, geleia de marmelo, pão cozido em forno a lenha. Gargalhadas, gritinhos, manchas de café que alguém entornou de propósito. A euforia reverberando nos corredores. “Há quantos anos não estávamos assim, todos juntos? Vinte? Trinta?” A frieza da véspera dissolveu-se com as conversas nocturnas. Recapitularam-se os diferentes rumos, as vidas tão díspares, reduzidas a um mero intervalo, uma pausa, uma elipse. Circulam fotos de filhos, escritórios no Porto, novos maridos, casas ainda a cheirar a tinta. Na cozinha, a mais velha das empregadas comove-se com o ruído infantil que volta a encher a casa, como no tempo em que a senhora ainda era viva e dava ordens.

4. Sobre o que o velho lhes vai dizer, paira a incógnita. Cármen e Baltasar acreditam que o pai, amolecido pela velhice, vai perdoar os desvarios da prole e recompensá-los a todos com um testamento generoso. Constança e Guilherme, por seu lado, temem um castigo tardio digno do Antigo Testamento. Só Filomena, a caçula ingénua, sorri: “Acho que ele nos chamou para isto, para estarmos juntos outra vez, para nos reencontrarmos assim.”

5. No quarto sombrio, o moribundo pede para falar com a filha mais nova. Os outros saem e ele partilha enfim o segredo que lhe envenenou a vida: “Apenas tu, querida, és sangue do meu sangue.” À saída, Filomena diz aos outros que o pai morreu sereno. E esconde-lhes a verdade. Dentro da malinha, inútil, o testamento que há-de rasgar mais tarde, no coração do bosque.


José Mário Silva


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O Faisão

Esse Natal passei-o no lago de Garda. Era um lugar inquietante, com algo de um porto levantino que se corrompeu a ser estância de moda. E no Inverno, com o soprar do vento alpino, o lago abria-se em cachões de chumbo, gemia como uma mulher no parto. Eu vivia numa casa à beira da água, uma estranha casa amarela com girassóis à entrada. Lawrence habitara perto, a dois quilómetros apenas; e eu pensava no encontro amável que seria o daquele homem numa tarde de chuva, com o seu gorro preto e um caderno de versos. Sentei-me por detrás da janela; o chá sabia a sabão, provavelmente alguém lavara escrupulosamente as chávenas, que tinham dióspiros pintados. Dióspiros ou pequenas begónias, não me lembro. Não havia luz eléctrica, um faisão magro tinha sido cozinhado num fogo de carvão; era um bicho esquelético, revestido de trufas mas nem por isso mais apresentável. Esperei até às onze horas pelos meus convidados; não vieram, e então jantei. Magnífica noite patriarcal, com o bramido do lago e o crepitante tremer dos juncos à beira da água! Acendi dez velas azuis e vesti outro casaco de lã por cima do vestido decotado. No Inverno sempre me visto mal, sempre me foge a alma para o mistério da hibernação, o sono dos ursos polares e o recolhimento dos esquilos. Cândido estalar de folhas secas, o cheiro opaco das peles onde a respiração se condena! O cataléptico Inverno, com o seu obscuro êxtase, a profética doçura do Advento, estação sem risos, religiosa, digna e profundamente compatível com o espírito. Eu deitei três pedrinhas de açúcar na minha xícara, e antes de pegar na colher ouvi uma voz autoritária, mas levíssima:
- Acho que estará demasiado doce.
Voltei-me. Não lhes disse que era uma sala quadrada, com quatro metros por cinco, não era bem quadrada, como podem ver. No ângulo da esquerda estava de pé um senhor extremamente bem trajado, de rosto distinto e que se esforçava por parecer louco. Não o conseguia. Via-se que fora esmeradamente educado na infância, e só podia parecer algo excêntrico. É um inglês – pensei –; são bastante conversáveis, se admitimos que desfrutam duma razão periclitante mas sobre-humana.
- Sou David Herbert Lawrence – disse ele. Não esperava isso, e levantei-me com precipitação.
- Seja bem-vindo. Há ainda faisão assado que não é mau. É um faisão de Sirmione. – Ele deitou um olhar de aflição para a mesa onde rechinavam as velas que, por baixo da pintura, eram de horrível sebo. Não achou convidativa a ave triste com os ossos denegridos sob as trufas, e voltou a cabeça evasivamente. – Feliz noite de Natal – acrescentei.
Lawrence sorriu com benevolência e pousou o seu chapéu de feltro, um borsalino cinzento. Era um homem muito decente, limpou os pés duas vezes antes de se aproximar. Depois apanhou o guardanapo que me tinha caído dos joelhos e entregou-mo delicadamente. As pessoas não reparam nestas sugestões do carácter, mas toda uma obra escrita, propícia a ser queimada na Chaminé do Rei, não prova a simples, sincera compleição dum autor; enquanto que os seus pequenos gestos de convívio, a maneira de pegar num objecto sem dar a impressão de se apoderar dele, o modo como entra numa casa sem dar a ideia de que espera demoli-la com o sopro dos seus pulmões, isso define o homem que muitas vezes o mundo recusou. A obra representa a crise e não a norma. Lawrence tomou uma cadeira vitoriana e pôs-se a falar com animação e argúcia.
- Feliz noite de Natal… Contudo, a senhora e eu estamos muito distantes dos nossos costumes, da nossa família, dos bons regalos da meninice, do rum a arder, das coroas de azevinho. Não vejo na sua mesa os severos pratos de abstinência, o azeite de oliveira e as fritas de mel. Para milhões de seres, durante muitos séculos, o Natal foi característica de cada rito; havia decerto, para os mais velhos, um estremecimento fúnebre ao ver vazios os lugares dos ausentes, ou preenchidos com uma alegria terrível. Sim, terrível… - Ele sorriu e estendeu sobre a mesa a sua mão febril. – Quando eu era criança, sempre dormia vestido na noite de Natal. E pensava que um anjo me encontraria pronto para viajar com ele, e me levava… Não é estranho?
- Era um pensamento discreto, mais nada – disse-lhe. Ofereci-lhe chá, mas ele recusou, ainda que tivesse o aspecto exangue e os lábios trémulos.
- Sempre fui discreto, as pessoas não perceberam que ser discreto é o contrário de ser sensato. A discrição pode-nos levar a ser perseguidos, a sofrer julgamentos infames. A sensatez contemporiza, renuncia; a discrição não pactua nunca, espera, confia, convoca, reserva-se. – Olhou para mim bem nos olhos. – O que significa torre de marfim? Ebúrneo é o rosto do que medita, sem paixão, nos mistérios da terra e do céu.
- Pode ser… - E eu pousei a minha mão na borda da mesa. Era uma sólida mesa de nogueira, e eu cobrira-a com uma toalha de estopa, único penhor do meu país e da minha casta. Tornara-me maleável e fina, do muito que a usara. Ela lembrava-me aquele canto escuro da cozinha onde vinham lavar as mãos os criados e os amos, antes de cear; o fumo do petróleo subia das candeias como um risco de grafite. Pensativo Natal era nesse tempo, discreto… Eu certifiquei-me de que não havia mais chá dentro do bule, teria que tomar a minha dose tal como estava, demasiado doce. Nesse momento chegaram os meus convidados; tinham bebido um pouco e riam-se alto, ouvia-os a cem metros de casa, Nesse momento chegaram os meus convidados; tinham bebido um pouco e riam-se alto, ouvia-os a cem metros de casa, procedendo a manobras com o carro. A chuva não era muita, mas o vento continuava a estalar as canas no lago. Lawrence levantou-se e despediu-se correctamente. Tinha uma cara s e despediu-se correctamente. Tinha uma cara surpreendente, de quem sofreu um desgosto anterior à própria razão; como se tivesse presenciado a destruição do amor e lhe sobrevivesse. Submergia com palavras não sabia que medo antiquíssimo e desprovido de memória.
- Esta noite nasce outra vez o Filho de Deus Invisível. – Fez uma pausa breve e disse: - Muitas vezes pensei que me aproximava, que sabia… Restava-me sempre a decepção e o desespero. Foi para minorar a amargura de adorarmos um Deus Invisível que nasceu Jesus. Era um rosto à nossa imagem, mas, porque vinha da parte do Deus Invisível, não o quiseram. Foi por isso. Celebramos a vinda do Homem, mas repelimos o seu Espírito.
Ele pousou um dedo nos lábios. – Discrição, e feliz Natal…
Não o vi sair. Eu retirava da mesa o faisão e deitava fora a minha xícara de chá. Encontraram-me a chorar.
- Não é nada – disse. – Não tenho jantar para vocês.
E fomos a Sirmione comer ravioli.


Agustina Bessa-Luís, Tríptico,
(in Natal (Editora Arcádia – 1978)

domingo, 31 de maio de 2009

ROSEMARY

Eram os olhos que, em Rosemary, mais chamavam a atenção: muito pretos, amendoados, rodeados de grandes pestanas, mais sorridentes que os lábios gordos e bem desenhados. E não admira. Era mexicaninha de gema, cheia de carnes firmes, torneada ao pormenor. Só não se dava muito pelos cabelos pretos e lisos, sempre rigorosamente apanhados, em pelo, sobre a nuca, cobertos com touca alençoada. E tinha um coração do tamanho duma abóbora-menina doce, doce, doce.
Rosemary casou aos dezasseis anos incompletos, por conveniência, com um velho americano que turistava na pequena cidade de Enseñada. Veio para a Califórnia na companhia do marido e foi às gargalhadas que o oficial da fronteira lhe visou o passaporte. Mais do que marido e mulher, pareciam avô e neta. Mas, para a então Rosa Maria, aquelas gargalhadas soavam melhor do que qualquer marcha nupcial. Para trás, deixava uma infância que nunca saíra do patamar da miséria: a multidão de irmãos, a barraca de espaço único, a promiscuidade, os pequenos crimes da sobrevivência, as disenterias de uma fome nunca satisfeita. E, sobretudo, um mercado de carne humana trafegado sob auspícios de crápulas que enriqueciam sem despesas. Foi nos meandros obscuros desta traficância que conheceu o velho americano com quem casou, após promessas de fidelidade que não eram para cumprir. A mesquinhez da vida ditava-lhe que aquele velho míope, vestido à safari e que se peidava finamente sempre que apalpava um seio de mulher, podia ser o seu bilhete da sorte. Suportou-lhe os cheiros e a lascívia e casaram sem demoras para não haver, de parte a parte, tempo para arrependimentos. Aos pais, o velho deixou algum dinheiro, comida e roupas que duraram pouco, mas que aliviaram a dor da despedida.
Na bagagem, Rosemary não trouxera saudades. Se a falta do cheiro do mar se confundiu, por vezes, com alguma lágrima atrevida, logo se apressava a enxugá-la com um “Tu estás é tola! A chorar por causa da falta do cheiro do mar?!”, mesmo com Luiz Sanchez a esperá-la, de sorriso enorme, chupa-chupa na mão para lhe oferecer, à saída do mercado do peixe. Era um amor de Primavera que o destino se apressou a fazer morrer de fome. Pelo menos, tinha a certeza do que não queria: ser igual à mãe, carregada de filhos, da barriga aos ombros, lambuzada de ranho, rota, suja e sem pão. Fugiu da miséria e das estórias líricas da avó Purificación, que mascava tabaco e cuspia palavras com lostras de saliva preta quando narrava casos duma guerrilha que não conduziu o povo a paraíso nenhum. Rosemary fazia que acreditava na virtude dos tiros e, enquanto a avó se engasgava, deixando à vista a ferida da sua boca desdentada, ela planeava a fuga daquele inferno de gente pobre. O velho americano fora mais que sorte grande.
Ao divorciar-se, Rosemary era dona de um pequeno apartamento, de um carro ainda em bom estado e de dinheiro suficiente para cursar enfermagem e assistência social.


Álamo Oliveira, já não gosto de CHOCOLATES